Ana Loro MetanQUEREMOS QUE 2008 SEJA MELHOR
Parece que a calma reina em quase todo o mundo se bem que saibamos que não é bem assim. Ainda há dias no Paquistão assistiu ao mais odioso e repugnante ataque à vida de uma vintena de pessoas para liquidar uma candidata a primeiro-ministro, Benazir Butto. Já anteriormente, há uns meses, num atentado bombista com o mesmo propósito, foi ceifada a vida a imensas pessoas. Dessa vez Benazir escapou praticamente ilesa.
Não se julgue que esta calma aparente significa que as guerras estão suspensas, que os que morrem de fome são coisa do passado, que os refugiados por todo o mundo já têm casa, que as crianças não são raptadas e que o tráfico de drogas e de seres humanos foi extinguido. Infelizmente nada disso aconteceu.
O mundo é uma bola que pula e avança, diz o poeta, e é isso que corresponde à realidade. Pena que pule e avançe para acontecimentos que estão a conduzir a humanidade para o descalabro total.
Não se trata de pessimismo mas sim de realismo inexorável que nos é oferecido pelos noticiários onde vimos através dos ecrãs dos televisores pessoas morrerem, ficarem despedaçadas, praticamente sem meios de sobrevivência, com fome e sede – pulando e avançando para a aniquilação.
Vimos também gigantescas urbes subirem para os céus e incessantes veículos motorizados movimentarem-se a velocidades apressadas, correndo não se sabe bem para onde, mas imaginando-se que todos correm atrás do mesmo: do tempo e do dinheiro. Um e outro são interdependentes.
É por esses valores que as nossas sociedades se regulam e parece não haver nada a fazer.
Resta-nos ir até ao fim. Um fim desconhecido mas que estará à nossa espera em qualquer esquina do tempo. Coisa que deixamos sempre para as gerações vindouras.
Se sempre foi assim, por que é que há-de ser diferente?
O ano que dentro de um dia termina, em Timor-Leste, trouxe-nos alguma estabilidade aos ânimos exacerbados. Quem os exacerbou optou pela contenção depois de conseguir em grande parte aquilo a que se propôs.
Poderá ser uma paz podre mas é paz social, relativa, que nos permite respirar um pouco melhor, apesar de não dar para sacudir o medo.
Essa foi uma melhoria em Timor. Quem nos trouxe a morte e a destruição – apesar de falar hipocritamente de paz – achou por bem conter-se após ocuparem os poleiros pretendidos.
Sabem do que falo e esta é a minha opinião.
Mesmo assim dou graças a esta paz. Condeno ainda é a “guerra” anterior e as que vão vir. Seja quem for que as despolete.
Parece que não será, desta vez, o actual presidente da República, Ramos Horta, a ferir a tranquilidade. Isto se quisermos acreditar nas palavras que proferiu a propósito do dia da independência.
Fazemos votos para que o ano que se aproxima seja melhor que este, como este, 2007, foi melhor que 2006. Mas não basta só não haver tanta mortandade e destruição. É preciso mais, muito mais do que aquilo que Ramos Horta acha que é preciso e de que fala no seu discurso cor-de-rosa.
Disse Ramos Horta: "Ajudar a criar tranquilidade para o desenvolvimento é um dever que todos temos perante o nosso povo. É um dever que tem de ser a primeira preocupação de todos".
Que bom, o presidente pensar assim.
Na realidade nunca vi um país que assente na injustiça social, política e criminal, conseguir estabilidade.
"Só o desenvolvimento e o combate à pobreza darão verdadeiro sentido à nossa independência e à nossa democracia", afirmou José Ramos Horta em Díli, durante as comemorações oficiais da proclamação unilateral da independência em 28 de Novembro de 1975.
Esta é uma grande verdade mas… e justiça? Falou Horta de justiça?
Procuremos.
Falou em desenvolvimento e disse: "desenvolver quer dizer ajudar as famílias de Timor-Leste a melhorarem, pouco a pouco, as suas condições de vida".
Justiça?
Mais ainda sobre o desenvolvimento: "Mas desenvolver é também investir na construção de infra-estruturas de que o país precisa, como estradas e pontes, boa produção de electricidade, sistemas de rega para ajudar os agricultores, equipamento de apoio para ajudar os pescadores", explicou.
Referiu-se ainda a "vários projectos em que o Governo tem de investir para modernizar o país".
Justiça?
Mais para o final do discurso: "Temos também de saber trazer para o país mais empresários e mais investimento, para criar mais empregos para os jovens, para ajudar a nova geração a melhorar, pouco a pouco, as suas condições de vida", defendeu José Ramos Horta.
Para isso, resumiu o chefe de Estado, as duas condições essenciais são "confiança e tranquilidade".
Tudo que o presidente da República referiu é importante. Evidentemente que só um lunático discordaria. Mas, que saibamos, as casas não se começam a construir por cima nem pelo meio e este presidente sabe muito bem isso. Então porque quer ele começar a construir o país por cima ou pelo meio?
Não basta estar a discursar sobre cadáveres de milhares e milhares de timorenses que têm perecido nas lutas fratricidas e contra o invasor inimigo dizendo palavras muito bonitas, que soam muito bem, que a seu tempo serão certamente oportunas – em qualquer altura bem vindas – mas que nos falam de continuação do mais no mesmo. Impasse. Inoperância. Incompetência para planear e executar em tempo útil.
A taxa de criminalidade em Timor-Leste é enorme e regra geral nem é observada por não ser declarada ou ficar impune. Roubos, assassínios, estupro, etc. Ocorrem e nada acontece aos criminosos. Há muitos casos.
Corrupção. Para Horta não há corrupção? Evasão fiscal?
Não estou aqui a dizer se são da Fretilin, do PSD, do PD ou da AMP. Isso não importa para os timorenses nem para os estrangeiros, cooperantes ou não, mas todos os dias, a toda a hora vimos corrupção principalmente no Estado, nos organismos do Estado e em tudo que a ele está ligado.
Justiça para a corrupção?
Justiça?
Nem uma palavra, sobre justiça, Horta pronunciou. Não o fez talvez por ter telhados de vidro relativamente a Alfredo Reinado…
Como se pode construir um país assente em injustiças? Em que um ex-oficial das FDTL anda à solta, à revelia do Tribunal de Justiça, com o seu apoio, com o apoio do primeiro-ministro e da PGR, entre outros da elite?
Onde dez por cento da população não tem casa e vive sem eira nem beira? Onde o desemprego é mais que demais?
Só palavras de conveniência, muito bonitinhas, mascaradas de sapiência e determinação de nada nos servem. São discursos de ocasião.
Olhando para trás, lamento ter de afirmar, não se vê nada a não ser devastação. Devassa até!
Olhando para a frente… queremos ter esperança.
Há sempre algo dentro de nós que nos permite agarrarmo-nos à esperança e é essa a única coisa que segura os timorenses ou qualquer outro povo do mundo. Repare-se que pela nossa parte estamos fartos de andar de frustração em frustração, estamos cansados de que nos enganem e precisamos de continuar a acreditar em coisas que se concretizem. Precisamos de acreditar no nosso país, livre e independente, com tudo aquilo de que o presidente fala mas também com muita justiça.
Queremos que 2008 nos traga tudo isso e seja melhor.
BOM ANO!
1 comentários:
CONFIRMAÇÕES.
1 ) Neste final de ano, se comprarmos com o final de 2006, algo se confirma:
- Por um lado a instabilidade que foi atiçada em 2006 contra o governo da Fretilin, com sinal evidente para os parâmetros negativos com que se regeu a oposição à Fretilin.
- Por outro a estabilidade que apesar de tudo foi garantida após as eleições, à custa de Fretilin, estabilidade essa que foi garantida, com a Fretilin em plena oposição.
2 ) Essas confirmações permitem fundamentar o raciocínio de que o enfraquecimento do estado de Timor Loro Sae, só tem vindo a beneficiar de facto terceiros, à custa da legitimidade nacional e da vontade, disciplina e dignidade de muitos patriotas que militam particularmente na Fretilin.
3 ) A eles ninguém pode dizer hoje que, ao perderem as eleições, partiram para um "banho de sangue", que seria de facto a completa rendição de Timor perante quem só isso era esperado e tudo fazia para que assim acontecesse.
4 ) Aquilo que se conseguiu em 2007, após o terrível ano de 2006, é um ponto de partida para que os patriotas de Timor Loro Sae e com eles a Fretilin, possam assumir plenamente a dignidade de seus princípios, muito antes de algum dia voltarem ao poder, garantindo desde logo as possibilidades essenciais de governabilidade.
5 ) É evidente que para isso haverá um caminho difícil, provavelmnente longo, mas perante o choque das doutrinas neo liberais e de seus mentores, uma paciente terapia de esclarecimento, de revigoramento de forças e de aprendizagem recípioca em relação ao Povo de Timor Loro Sae, é o caminho alternativo e paryicipativo mais recomendável.
Martinho Júnior
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